Saúde da Raça Dobermann

O Dobermann em Movimento

Renato de Mello Almada
Expositor da Raça Dobermann desde 1982
www.thorests.com.br

Considerações gerais

Como é cediço a movimentação é de fundamental importância para o cão, vez que a função por ele exercida dela depende. Pode-se dizer que toda a estrutura do cão é 'vista' quando o mesmo está em movimento. Portanto, quanto mais correta for sua estrutura, melhor será a movimentação e mais apto o exemplar estará para o desempenho de sua função.

A movimentação, segundo os estudiosos da matéria, compreende basicamente três fases: Propulsão – Transmissão - Alcance. A força gerada pela propulsão será transmitida pela coluna vertebral e se esgotará no alcance dos anteriores. Quando a propulsão for insuficiente ou excessiva, o cão procurará compensar esse desequilíbrio e surgirão os problemas na movimentação.

Há quatro tipos básicos de andadura no cão, a saber: Marcha – Passo - Trote e Galope. Lembremos sempre que o dobermann é um galopador e não um trotador. Contudo, em exposições, para verificação da movimentação, convencionou-se andadura em trote.

Valendo-se mais uma vez de conceituação dos estudiosos da matéria, temos o trote como sendo uma movimentação simétrica, ou seja, cruzada. O cão irá propulsionar com a pata traseira direita e alcançar com a pata dianteira esquerda e assim sucessivamente, excetuando-se o Fila Brasileiro que deve apresentar o passo de camelo que é uma andadura assimétrica, vale dizer, o cão irá propulsionar com a pata traseira direita e alcançar com a pata dianteira direita também. Porém, no dobermann, isso não é correto! Daí porque, com respeito aos entendimentos em contrário, não vejo sentido algum quando pedem que o dobermann movimente-se a passo.

A propulsão depende da qualidade da angulação dos posteriores e a angulação dianteira deve harmonizar-se com a dos posteriores.

Mas vamos nos ater à análise da movimentação do cão em pista. O que o árbitro deve procurar enxergar?

Como é sabido, o árbitro irá analisar a movimentação do cão em dois sentidos: Em linha reta (o cão descreve uma linha reta em frente ao árbitro que avalia os posteriores quando o cão vai e os anteriores quando o cão volta). Em círculo (o cão descreve uma trajetória circular e o árbitro o avalia de dentro desse círculo. Aqui são observadas: A amplitude das passadas; o porte da cabeça/pescoço; a linha superior e o porte da cauda).

E quais os problemas podem ser vistos na movimentação em linha reta?

Os mesmos problemas vistos no cão parado são até mais facilmente detectados quando o cão está em movimento. Vamos lá: Quando o cão vai e se observa os posteriores, deve-se analisar o paralelismo dos jarretes. O mesmo se aplica quando o cão está parado e o árbitro vai por trás analisar o cão, ou seja, verifica se ele expulsa os jarretes ou os aproxima ou se os mesmos são paralelos.

Quando o cão volta observa-se os anteriores, devendo-se analisar a ponta do cotovelo em relação ao tórax. Devemos ver se ele expulsa ou aproxima os cotovelos ou se os mesmos permanecem paralelos ao tórax.

Outro ponto importante na avaliação em linha reta é o "crabbing", que seria algo como 'caranguejar' ou 'tangenciar'. Ocorre quando o cão se movimenta de lado na linha reta. Isso se deve ao excesso de propulsão, bem assim ao centro de gravidade.

E em relação à movimentação lateral?

A linha superior, quando muito, deve apresentar uma discreta oscilação. A cabeça e a cauda se portarão de acordo com o tipo esquelético da raça. Como explicitaremos abaixo, no dobermann, é incorreto pensar que o mesmo deve portar o conjunto pescoço/cabeça ereto quando em movimentação. Esse conjunto deve ser ligeiramente ereto quando em movimento.

Os problemas basicamente irão ocorrer por excesso de propulsão ou falta de propulsão.

Quando o exemplar apresenta as angulações mais pronunciadas do que deveriam, haverá uma propulsão exagerada ou excessiva e para compensar isso poderá o cão se utilizar dos seguintes recursos: Sobre passo, portar a cauda baixa, apresentar linha superior capeada etc.

Quando as angulações são menos pronunciadas do que deveriam, a força propulsora se esgotará antes do alcance se completar. Aqui, como forma de compensação, pode ocorrer a pisada curta, o porte de cauda alto, linha superior selada etc.

Essa é a visão geral que se tem quanto à matéria. Portanto, analisar a movimentação de um cão é bem mais complexo do que a primeira vista possa parecer. Tudo, exatamente tudo, deve ser analisado nesses 'segundos' em que o cão está em pista se movimentando.

A MOVIMENTAÇÃO DO DOBERMANN

Em outra oportunidade já escrevi a respeito das proporções e quadratura do Dobermann. Partindo do quanto lá consignado, temos que ter em mente que o Dobermann deve ser bem angulado de frente e que suas angulações posteriores devem ser balanceadas com as anteriores, sem exageros.

Como antes ressaltado, o Dobermann é um cão GALOPADOR e não trotador. Daí porque, entre outras coisas, não assiste razão àqueles que pensam ter o Dobermann que se movimentar com as orelhas eretas e conseqüentemente portar alto, quase esticado, o conjunto cabeça/pescoço. Ora, justamente pelo fato de o Dobermann ser um galopador é natural que, com o aumento da velocidade, coloque suas orelhas para trás. Assim, bem ao contrário do que muitos pensam, deve o Dobermann - quando em movimento - portar sua cabeça levemente acima da horizontal, na posição de equilíbrio de sua função.

De outro lado, ponto essencial para a boa movimentação do Dobermann é a cobertura de solo. No trote, que é a movimentação padronizada em exposições, os cães mais longos, principalmente quando em círculo, tendem a apresentar uma falsa impressão de correta movimentação, pois o comprimento maior da região lombar facilita as mudanças de direção, demonstrando uma irreal elasticidade, uma vez que a real elasticidade de um cão em movimento baseia-se na capacidade de o mesmo percorrer um maior espaço com menos passadas, ou seja, depende do equilíbrio de suas angulações. Já os cães muito curtos tendem a fazer sobre passo.

Para finalizar, tomemos por empréstimo as considerações tecidas pelo saudoso Juan Carlo Di Luca, em artigo de sua lavra, publicado na Revista Cinofilia, ano II, nº 18, 1982, p. 54, muito propício para o presente momento: “tenho observado que se fala muito sobre movimentação de Dobermann e em muitos casos esquecem que sendo animal cuja quadratura é essencial tanto em machos com em fêmeas, e por tanto e pela sua conformação um animal de galope e não de trote o essencial é ter uma excelente cobertura de solo. Isso não pode se lograr a grande velocidade, pois somente os retangulares e não quadrados podem manter uma grande velocidade em trote. Acredito que uma perfeita angulação dianteira é importante, uma vez que como se está levantando a cruz existe uma tendência a abrir a angulação dianteira onde é comum encontrarmos Dobes muito elegantes e com uma linda linha dorsal em descendência e isto somente é uma falta de angulação dianteira. Passo curto a frente com pouca propulsão traseira, mas com muita velocidade e repicando é coisa normal e se confunde com boa movimentação. Não podemos nunca esquecer que o Dobermann é somente um cão de guarda, não pastoreia ovelhas, não tem necessidade de percorrer obrigatoriamente grandes percursos diários e tão somente vigiar sua propriedade e ter ‘imprantus’ e reflexos imediatos para pegar o ladrão, com um ou dois galões de galope, massa para enfrentar e derrubar e nunca esquecer o temperamento ativo, altivo e que pela sua expressão seja forte.”

CONCLUSÃO
Por tudo quanto acima exposto, resumidamente, tem-se que o dobermann é um cão galopador por excelência. Aliás, como dizem todos aqueles que têm o privilégio de conviver com essa maravilhosa raça, não há nada mais bonito do que ver um dobermann galopando. Talvez, por isso, também nos enche os olhos ver em pista um dobermann sendo conduzido por seu handler com a guia solta, movimentando-se livremente, como deve ser.

Urge, como síntese desse artigo, destacar o quanto contido no Padrão FCI 143, de 14/02/1994, no que diz respeito ao tema:

MOVIMENTAÇÃO: de especial importância tanto para o trabalho quanto para a aparência externa. Movimentação elástica, elegante, ágil, livre e boa cobertura de solo. Os anteriores alcançam o mais longe possível. Os posteriores fornecem a impulsão necessária pela elasticidade de seus movimentos. O anterior de um lado e o posterior de outro se movimentam ao mesmo tempo. Deve apresentar boa estabilidade de dorso, nos ligamentos e articulações.”
Diante disso, constitui falta a movimentação bamboleante; limitada ou dura e o passo de camelo.

Essas, enfim, as considerações que entendo pertinente em relação à movimentação e que, nem sempre, são atentamente observadas nas pistas de julgamento.